segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Mudo Éter



Da pacatez, o mito, simples, ténue, longo e lento
A calma do longínquo calor de outrora
Lembrança de verde e húmida sensação
Já não nas paginas do livro que devoras.

Ao longe há uma ponte e o infinito
Mas a calma que te atrai não faz efeito
Segues e mergulhas no vazio
Que o éter não tem voz
E o viver não é defeito

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Miragem




As silhuetas que refletem o teu humor
O fumo que as leva em rodopio
Na brisa em que se fundem,
Se entristecem,
Desvanecem.
E descendo se consomem,
À terra se entregam por um fio,
Desaparecem no mais profundo ardor.

Porque é tão vago o teu olhar?
Porque é tão triste o teu gostar?

Será do sempre mundo ausente
Ou apenas do infinito procurar?


Excerto do que há-de vir

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O peso dos prós




Vislumbra-se um novo caminho.
Um tempo, depois da azia deixada pelos últimos dias de banquete.
O verde que traz a esperança nem sempre anima,
Desfaz-se na calma e sensaborona sensação inútil,
Que depois das festas vem a luz.
Mas, pesados os prós, assim será.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Do sagrado e do profano



Neste lento e pachorrento período
que medeia o Natal e o novo ano.
Tempo em que se festeja o sagrado e se vive o profano.
Por entre o alegre reflexo branco das geadas,
o cinzento do melancólico nevoeiro,
no extremo sem fim do fim do ano,
se divisa o tempo que acabou.
Mas é frio, muito frio.
Ao longe, fica o longe das coisas quentes.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Solidariedade ou o sapatinho do Menino




"No meio deste cenário estava Tiago. Por entre os dedos definhava lentamente mais um cigarro, o terceiro do segundo maço de hoje. Este, o não oficial, escondido na meia direita. O outro, o oficial, entre os fumados e os cravados, tinha acabado logo a seguir ao almoço.
Na rua interior do complexo, para além das visitas circunstanciais, caminhavam sem rumo nem nexo alguns dos companheiros de infortúnio. Incessante e insistentemente pediam algo: uma moeda, um cigarro, um café, qualquer coisa, quanto mais não fosse para chamar a atenção.
Rostos marcados pelo drama, olhares vazios, expressões de desalento ou de puro frenesim, consoante as circunstâncias. De qualquer forma, por todos eles se sentia uma franca, estranha e até incompreensível solidariedade."

Armando Sena

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Rasteira



De fobias, percalços e embaraços
Repentina e persistente melancolia
Corre, deambula em ousadia
Desatina e estrebucha envolta em braços

Vassalo é o fragor que a dor consome
Afago as tristes rugas com a mão
De toda essa vasta imensidão
Sobra a tristeza que não dorme

E, por fim em ti bate certeira
Cínica e sempre repentina
Envolta em laivos de ruina
A típica, vil, cruel rasteira

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Aerogeradores e ambientalistas




Rodou a chave da ignição e num ápice estava já nas curvas e contracurvas da sinuosa estrada que o levaria às outras curvas que lhe toldavam já o discernimento.
Ao longe viam-se as luzes de Lamalonga. No cimo de um monte, já do lado sul, piscavam as lâmpadas sinalizadoras de um aerogerador, praga esta que em nome do progresso, do ambiente e de coisas afins que os políticos se lembravam de inventar, invadia a linha do horizonte e, como um abcesso, toldava todo o bom ambiente visual que por ali se abarcava.
Como normalmente, os problemas ambientais criados pelos citadinos senhores urbanos, acabam por ter repercussões nos aldeões senhores rurais que em nada contribuíram para os criar, mas que a eles e às suas exigências ficam sujeitos.

Armando Sena