terça-feira, 13 de março de 2012

Cadência



..."Ao seu lado alguém, porque há sempre alguém que nos dá a mão, cedia-lhe as pontas dos dedos. Ele nem percebia que eram dedos finos e esbeltos, compondo uma mão também fina e extremamente elegante, de mulher. Dedos carinhosos de afeto e aconchego. E assim, de mão dada, partilhavam o caminho até ao recolhimento.
Continuava e nem percebia se a mulher que o acompanhava era sua companheira de desventura, se partilhava a mesma ala do hospital com ele ou se era apenas uma visita. Se era real ou algum anjo da guarda que alguém lhe tinha enviado.
Ao chegar à porta, após o toque da campainha e a chegada de uma enfermeira, muito bonita como quase todas elas, da abertura da porta fechada a sete chaves, teve a resposta.
Ela entrou com ele para dentro da sua ala. Era então companheira de desgraça. Desgraça, aventura, desventura, isolamento, reencontro, solidão, recolhimento, renascimento ou outro qualquer termo que não iria alterar nada ao estado atual de ambos.
E no corredor, espraiavam-se no cinzento de um cérebro amorfo, ténues recordações de outrora."
....

domingo, 11 de março de 2012

O Cozinhado




Excerto

"...meditava nisto Tiago, no fim de uma manhã inteira à volta dos tachos.
Sem ter chegado a qualquer conclusão, que o tema não é dado a essas coisas, Tiago sentava-se agora com o grupo de amigos dos petiscos, à mesa.
Tiago sempre foi um amante da comida e da boa cozinha. Costumava dizer que quem melhor aprecia a comida, é quem sabe como é feita. Da arte dos temperos, da magia da mistura dos ingredientes, surge o requinte, os sabores de eleição. Tiago não gostava da cozinha propiamente dita, gostava de cozinhar. Era desarrumado por natureza, ao fim do almoço preparado, a cozinha teria a aparência de um teatro de guerra, com granadas e explosões várias à mistura, mas isso seriam os próximos capítulos. Primeiro o gosto, depois os desgostos.
No centro da mesa, num enorme tacho de barro, após quatro horas a ferver dentro de uma panela de ferro fundido, submersa por um molho espesso que ninguém tinha coragem de perguntar de que era feito, repousava em grandes pedaços, o que já tinha sido uma lebre de quatro quilos.
A época da caça tinha começado, a lebre tinha sido oferta de um cliente.

- Você vende-me as coelhas, eu dou-lhe uma lebre, tinham sido as palavras do Joaquim de Cête, proeminente barrigudo, amante de amantes, da bebida e de noitadas."

segunda-feira, 5 de março de 2012

Início




Da janela do quarto, do lado direito da cabeceira, conseguia divisar o sol do início do dia. Um imponente sol de maio, sob um céu azul pontualmente salpicado por pequenas nuvens. Era este o quadro exposto na janela por onde entrava o mundo, que não conseguia ter vontade para apreciar.
O movimento das ruas, visível desde onde se encontrava, era o normal considerando uma quarta-feira de manhã. A vida lá fora continuava normalmente, as pessoas estavam, como sempre, alheadas das desgraças dos outros. Somos mais atentos à normalidade quando a nossa já acabou.
Entramos neste mundo quando outros cá estão, saímos deste mundo e outros cá ficam. Ninguém se apercebe que chegámos e tudo continua o seu normal curso quando partimos. Se nada mudou quando aparecemos, tudo permanecerá inalterado assim que partirmos. Triste conclusão a de um condenado, triste fado, pior sorte.

Excerto do que há-de vir. Capítulo I

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ensaio



Em gestos lentos, saboreados, sacou a rolha da garrafa. Serviu o vinho no copo até meio. Sem prova, não era necessário, o aroma libertado pelo néctar era suficiente, invadia-lhe as entranhas, subia-lhe à cabeça, aquecia-lhe a alma.
Bem, agora sim, era altura da imersão em água fria. Pousou o copo num dos cantos da banheira, entrou então ela, primeiro um pé, depois outro. Sentou-se, tremeu com o primeiro contacto da água fria na pele quente. Com as mãos em concha, cheias de água, levou-as à altura da cabeça e deixou que a água lhe escorresse pelo rosto.
Agora sim, começava a sentir-se melhor, pegou então no copo e virou-o contra a luz. Um vermelho rubi, uma cor poderosa, baixou o copo e sentiu um leve aroma frutado, não muito, que o vinho era encorpado e com algum estágio, a colheita de 2005 tinha sido excelente. Lentamente, com prazer, alheia a tudo, Margarida ingeriu o primeiro golo. Potente, penetrante, percorreu-lhe todas as veias, estimulou-lhe o corpo, libertou-a.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Aliança




"Não sei se caminho em parte incerta
Se o tempo é este em que vegeto
Se o que vivo é agora ou longe ausente
Se sim, se não, se dor somente.

Aquela porta que no fim já foi aberta
É agora sinónimo de ti presente

Longe vai o tempo e a lembrança
Perto da presença que te invoca
A lua que é a mesma e me provoca
Esguia escorre em demasia
Desfalece, agoniza e ressuscita

Assim se completa a aliança
Do tremor da noite se faz dia


Depois disto, amarfanhou o papel e deitou-o em forma de bola para o caixote do lixo que se encontrava no canto.
Pediu outra caneca e bebeu-a até meio. Aos poucos ia aliviando, pela sua cara alcoolizada passava o sorriso da certeza.
Estava decidido, a sua colheita estava feita. A sua vida ia mudar.
E, para não perder tempo, começaria já. Levantou-se e decidido, dirigiu-se para a saída do bar. Adornou para a esquerda, tropeçou na cadeira, estatelou-se contra a mesa e sentiu a caneca atingir-lhe a nuca, no preciso instante que antecedeu o momento em que os seus queixos batiam vigorosamente no soalho da esplanada.
Acordou passadas duas horas numa cama do hospital com um penso a cobrir-lhe parte da cara.
Nada que pudesse afectar-lhe o ânimo. Hoje seria o primeiro dia do resto da sua vida."

Excerto do que há-de vir

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Entrudo Trabalhador




Mas que bela era a folia
Pelos rostos alegria
Era autentica a euforia
Tolerância ainda havia
........mas
Completa a alegoria
Da pérfida tirania
Do feriado nostalgia
Trás-nos então esta azia
de trabalhar neste dia
que a mal ninguém levaria

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Ligações virtuais



"O computador, no lento arrancar, para além de espevitar a ansiedade de Filipa, aumentava-lhe o mau humor.
Estava cansada. Cansada do dia de estudo, cansada do marasmo dos últimos tempos, da ausência, da solidão, cansada da vida, aos vinte anos…
Finalmente conseguiu ligar-se à rede, ao mundo, à vida, como ela costumava dizer quando se picava com a mãe.
Primeiro uma voltinha pelas seus sítios, as mensagens curtas dos amigos, dos amigos dos amigos, dos pseudo amigos que nem conhecia e dos anónimos amigos dos seus pseudo amigos. Enfim, uma parafernália de intrincadas e extensas ligações virtuais que só lhe aumentavam a solidão, num mundo de farto e preenchido banquete virtual."