sexta-feira, 13 de abril de 2012

Interrogação



Não, que dito assim é sempre incógnita
Escrito sempre soa a vil certeza.

Mais vale entre dentes sussurrado
Como se de um ai, um delírio se tratasse
E só por palavras se consumasse.

Traria nas asas do pecado
Toda a vontade que jorrasse
De quem mal ainda tinha iniciado
E, desejando não ter fracassado
Esperava, em vão, que se esgotasse
O rastilho do efeito almejado

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Estratega




“Artur gostava daquele jeito decidido de Filipa. Apetecia-lhe uma coisa, investia nela. Sem grandes planificações, sem premeditações.
Pelo contrário, ele era o típico financeiro, o homem do planeamento. Tudo tinha que ser ponderado, pesado, avaliado. No fim, perdia-se todo o prazer do imediato, da descoberta, do imprevisto. Filipa era o seu contraponto.
Pensava nisto já a caminho de casa. Aí chegado, tomaria um banho, escolheria a roupa peça por peça, a cor das meias que combinariam com a camisa e por fim, poria o perfume que Filipa lhe tinha recomendado anteriormente.
Passou-lhe a angústia, parecia outro. O andar, era agora firme, decidido. Só ela o punha assim.
Passaria ainda pelo centro comercial para comprar uma prenda a Filipa e, depois sim, partiria. Seriam ainda uns longos e extenuantes quilómetros até ao paraíso.
O toque de uma mensagem no telemóvel despertou-lhe então os sentidos.”

Armando Sena

quinta-feira, 29 de março de 2012

Coragem



Coragem é uma bússola, um guia e um desafio. A coragem leva à Esperança, a que nos mantém, nos anima e nos faz reconhecer que um dia toda a luz indicará o despontar da Aurora.

sábado, 24 de março de 2012

Para trás das costas


"E, enquanto bebia em pequenos goles o restante vinho do copo, pegou numa caneta e escrevinhou num cartão de publicidade do restaurante:

Do instante que vagueia em colorido
Das sombras que já foram e esmoreceram
Vai-se o toque do inconstante foragido
Ressuscita embalado o eterno ar
De quem o alento já tinha perdido

E com ares de Primavera ausente
Eis que surge com presunção de Vitória
Não passando de eterno, vivo, mas dormente
Desperta em ti a vontade que desmente
Que a Batalha só se vence com a Glória


Era uma inconstante e escarnecedora contradição. O homem do dinheiro, o gestor de futuros, era na escrita sempre que encontrava o seu escape. Afinal tudo não passava de um palco onde cada um desempenhava o seu papel, vendia a sua alma e tentava sobreviver.
Um dia, quem sabe, dedicar-se-ia a escrever. Mas não por agora. A mágoa não o deixava e o orgulho tolhia-lhe a iniciativa.
Guardou o papel no bolso de trás das calças, não tinha ainda decidido que futuro lhe dar."

Armando Sena

terça-feira, 20 de março de 2012

Insónia




“Passava já das quatro da manhã e não tinha sono. Tiago era noctívago por obrigação, por necessidade, mas não por escolha.
O sono não é um vício, uma vontade ou necessidade. É sim uma dádiva. Uma preciosa dádiva de quem só sente a falta, quando nota a sua ausência. E, neste aspecto como em tantos outros na vida, Tiago não tinha sido bafejado pela sorte. Ir para a cama, para ele, era um pouco como um toque a recolher. Era por obrigação, era porque era. Sabia que não iria dormir de repente, não conhecia esse ato. Melhor, conhecia, mas estava tão distante na sua memória, que lhe tinha perdido a sensação. A única parecida, era a que lhe proporcionavam os medicamentos que tomou e que criavam um atalho entre o completamente desperto e o mais profundo dos sonos. Mas, como tudo o que não é natural, também isso não era eterno. E, mal parava a medicação, logo o atalho se transformava num longo e penoso caminho.
Este período dava para tudo. Para reflectir, fazer planos, desfazê-los mesmo antes de estarem prontos, fazer juras eternas e rompe-las, mesmo antes de se concretizar o primeiro passo.
Mas hoje não era esse o caminho. Apetecia-lhe rever a sua última noite…”

terça-feira, 13 de março de 2012

Cadência



..."Ao seu lado alguém, porque há sempre alguém que nos dá a mão, cedia-lhe as pontas dos dedos. Ele nem percebia que eram dedos finos e esbeltos, compondo uma mão também fina e extremamente elegante, de mulher. Dedos carinhosos de afeto e aconchego. E assim, de mão dada, partilhavam o caminho até ao recolhimento.
Continuava e nem percebia se a mulher que o acompanhava era sua companheira de desventura, se partilhava a mesma ala do hospital com ele ou se era apenas uma visita. Se era real ou algum anjo da guarda que alguém lhe tinha enviado.
Ao chegar à porta, após o toque da campainha e a chegada de uma enfermeira, muito bonita como quase todas elas, da abertura da porta fechada a sete chaves, teve a resposta.
Ela entrou com ele para dentro da sua ala. Era então companheira de desgraça. Desgraça, aventura, desventura, isolamento, reencontro, solidão, recolhimento, renascimento ou outro qualquer termo que não iria alterar nada ao estado atual de ambos.
E no corredor, espraiavam-se no cinzento de um cérebro amorfo, ténues recordações de outrora."
....

domingo, 11 de março de 2012

O Cozinhado




Excerto

"...meditava nisto Tiago, no fim de uma manhã inteira à volta dos tachos.
Sem ter chegado a qualquer conclusão, que o tema não é dado a essas coisas, Tiago sentava-se agora com o grupo de amigos dos petiscos, à mesa.
Tiago sempre foi um amante da comida e da boa cozinha. Costumava dizer que quem melhor aprecia a comida, é quem sabe como é feita. Da arte dos temperos, da magia da mistura dos ingredientes, surge o requinte, os sabores de eleição. Tiago não gostava da cozinha propiamente dita, gostava de cozinhar. Era desarrumado por natureza, ao fim do almoço preparado, a cozinha teria a aparência de um teatro de guerra, com granadas e explosões várias à mistura, mas isso seriam os próximos capítulos. Primeiro o gosto, depois os desgostos.
No centro da mesa, num enorme tacho de barro, após quatro horas a ferver dentro de uma panela de ferro fundido, submersa por um molho espesso que ninguém tinha coragem de perguntar de que era feito, repousava em grandes pedaços, o que já tinha sido uma lebre de quatro quilos.
A época da caça tinha começado, a lebre tinha sido oferta de um cliente.

- Você vende-me as coelhas, eu dou-lhe uma lebre, tinham sido as palavras do Joaquim de Cête, proeminente barrigudo, amante de amantes, da bebida e de noitadas."