terça-feira, 24 de abril de 2012

Na Demanda do Ideal em Chaves



O realizar de um anseio, um dia tinha de ser. Agora em casa, tentamos dar mais um alento ao meu primeiro romance. "Na Demanda do Ideal" chega agora a Chaves e, na biblioteca municipal, onde antes já foram os bombeiros, ao lado do liceu Fernão de Magalhães, cenário do meu secundário, ao fundo de um dos maiores ícones flavienses, o Jardim das Freiras. Será no dia 11 de Maio e estão todos convidados.
Um agradecimento à Biblioteca Municipal de Chaves pelo empenho na realização do evento e, claro, à Lua de Marfim, que me tem acompanhado desde o início desta caminhada.

Armando Sena

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fuga

 
"De uma prateleira para outra, pegando na garrafa, girando-a, lendo o rótulo com calma, assim Filipa se entretinha, à espera do voo que a levasse para Frankfurt e daí, com mais uma escala em Singapura, para Sidney. Sim, a Austrália era o seu destino.
Os rótulos das garrafas vendem esperanças, o vinho, pelo menos para quem dele sabe pouco, entra primeiro pelos olhos que pela boca.
Era este mundo que Filipa queria desvendar. Era este o seu novo Foco. Entrar pela vista para chegar ao coração. E, aí chegado, tornar-se uma referência.
Viajava para um novo continente, não como os degredados de antigamente. Pelo menos, não no sentido de estar a cumprir uma pena decretada por um qualquer magistrado. Mas não lhe era de todo indiferente o facto de estar a fugir de um emaranhado em que se tinha envolvido. Fugindo de tudo encontrar-se-ia a si própria. Esta era a sua esperança. Era este o motivo que a impulsionava e que sem hesitações a levou a aceitar de forma rápida e decidida o convite feito pela mãe.
Para trás deixava tudo. Todos os que tinha conhecido e com quem tinha convivido desde o nascimento. Para trás deixava nada."

Excerto do que há-de vir. 

Armando Sena


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Interrogação



Não, que dito assim é sempre incógnita
Escrito sempre soa a vil certeza.

Mais vale entre dentes sussurrado
Como se de um ai, um delírio se tratasse
E só por palavras se consumasse.

Traria nas asas do pecado
Toda a vontade que jorrasse
De quem mal ainda tinha iniciado
E, desejando não ter fracassado
Esperava, em vão, que se esgotasse
O rastilho do efeito almejado

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Estratega




“Artur gostava daquele jeito decidido de Filipa. Apetecia-lhe uma coisa, investia nela. Sem grandes planificações, sem premeditações.
Pelo contrário, ele era o típico financeiro, o homem do planeamento. Tudo tinha que ser ponderado, pesado, avaliado. No fim, perdia-se todo o prazer do imediato, da descoberta, do imprevisto. Filipa era o seu contraponto.
Pensava nisto já a caminho de casa. Aí chegado, tomaria um banho, escolheria a roupa peça por peça, a cor das meias que combinariam com a camisa e por fim, poria o perfume que Filipa lhe tinha recomendado anteriormente.
Passou-lhe a angústia, parecia outro. O andar, era agora firme, decidido. Só ela o punha assim.
Passaria ainda pelo centro comercial para comprar uma prenda a Filipa e, depois sim, partiria. Seriam ainda uns longos e extenuantes quilómetros até ao paraíso.
O toque de uma mensagem no telemóvel despertou-lhe então os sentidos.”

Armando Sena

quinta-feira, 29 de março de 2012

Coragem



Coragem é uma bússola, um guia e um desafio. A coragem leva à Esperança, a que nos mantém, nos anima e nos faz reconhecer que um dia toda a luz indicará o despontar da Aurora.

sábado, 24 de março de 2012

Para trás das costas


"E, enquanto bebia em pequenos goles o restante vinho do copo, pegou numa caneta e escrevinhou num cartão de publicidade do restaurante:

Do instante que vagueia em colorido
Das sombras que já foram e esmoreceram
Vai-se o toque do inconstante foragido
Ressuscita embalado o eterno ar
De quem o alento já tinha perdido

E com ares de Primavera ausente
Eis que surge com presunção de Vitória
Não passando de eterno, vivo, mas dormente
Desperta em ti a vontade que desmente
Que a Batalha só se vence com a Glória


Era uma inconstante e escarnecedora contradição. O homem do dinheiro, o gestor de futuros, era na escrita sempre que encontrava o seu escape. Afinal tudo não passava de um palco onde cada um desempenhava o seu papel, vendia a sua alma e tentava sobreviver.
Um dia, quem sabe, dedicar-se-ia a escrever. Mas não por agora. A mágoa não o deixava e o orgulho tolhia-lhe a iniciativa.
Guardou o papel no bolso de trás das calças, não tinha ainda decidido que futuro lhe dar."

Armando Sena

terça-feira, 20 de março de 2012

Insónia




“Passava já das quatro da manhã e não tinha sono. Tiago era noctívago por obrigação, por necessidade, mas não por escolha.
O sono não é um vício, uma vontade ou necessidade. É sim uma dádiva. Uma preciosa dádiva de quem só sente a falta, quando nota a sua ausência. E, neste aspecto como em tantos outros na vida, Tiago não tinha sido bafejado pela sorte. Ir para a cama, para ele, era um pouco como um toque a recolher. Era por obrigação, era porque era. Sabia que não iria dormir de repente, não conhecia esse ato. Melhor, conhecia, mas estava tão distante na sua memória, que lhe tinha perdido a sensação. A única parecida, era a que lhe proporcionavam os medicamentos que tomou e que criavam um atalho entre o completamente desperto e o mais profundo dos sonos. Mas, como tudo o que não é natural, também isso não era eterno. E, mal parava a medicação, logo o atalho se transformava num longo e penoso caminho.
Este período dava para tudo. Para reflectir, fazer planos, desfazê-los mesmo antes de estarem prontos, fazer juras eternas e rompe-las, mesmo antes de se concretizar o primeiro passo.
Mas hoje não era esse o caminho. Apetecia-lhe rever a sua última noite…”