segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cálido




Na lembrança ressuscito o amanhã
Do peito, que foi prado que tomaste

O caminho, os socalcos , as veredas
Criando uma ilusão de vitória temporã
O ardor de flamejantes labaredas
Que posto o sol rompiam em contraste

A mão, que sem cuidar o rosto toca
Em riste, um dedo fino e acusador

Mas, malgrado a coragem que evoca
A boca desgoverna em tremor
Perde o controlo e o rigor
Pois que o peito arfa e a alma trota

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Firmeza




A firmeza não é um lugar comum
Um refúgio, de biltres e tirania
Em tempos onde escorre,
a pérfida arbitrariedade
do peito cheio e alma vazia

É a consciência do querer
Da livre inquietude da procura
Do ventre, as entranhas afoitar

Mesmo que em vão fuja o suporte
É firme a vontade de almejar
E vã será até a própria morte

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Certeza





Nada do que sinto me pertence
Credor que sou de alguém
Que não existe
Do chão que se consome
Da lua que é real
Do fim que é um princípio
e Incerteza natural

Chega o dia
Parte a esperança
Volta o sol em porta estreita

O que era um exercício
Um emaranhado de Incertezas
à beira do precipício
hoje o tempo e a bonança
dele anunciam a Colheita

domingo, 6 de maio de 2012

Colheita




"Recordava os tempos arrebatadores no Alentejo e as palavras que docemente lhe tinha sussurrado ao ouvido na esplanada do hotel onde estavam alojados.

Nada mais que uma sobremesa alentejana, num doce e sedutor vagar da planície, por entre searas de trigo verdejante sob os diáfanos raios solares do fim do dia.
A taça de sericaia numa mão e toda a vontade do mundo no corpo.
Permaneceríamos aí, tempos infindáveis a olhar o céu, até que as estrelas dessem lugar a novos raios de sol, estes, indicadores de um futuro brilhante, como brilhante é o sol sobre a seara.

Então, sob o bater das acácias nas tuas costas, descerias suavemente sobre mim.
A tua respiração ofegante, aliada aos pequenos gritos libertos na ternura da planície, pintariam com traços de desejo o quadro onde a vontade nos tinha colocado.

E a memória foi ocupada a cem por cento pelo sorriso rasgado de Margarida, admirada pela veia poética dele.

Depois, bem, depois começaram os escolhos, obstáculos hercúleos, que a vida tem destas coisas."

Excerto.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Tentativa




Não pertenço aqui nem a parte incerta
Sou cidadão ausente e intemporal

Deslizo sobre o éter e desaguo
num leito onde só cabem esperanças

Todo o infinito que te enjeita
É curto e limita-te a ousadia

Mas.. ah! sempre um mas!
É bom saber, ter a certeza
Nem tudo é sujeito à tirania
de escolhas que prometem realeza.

Não, de ti, decides tu. Ah Ironia.

sábado, 28 de abril de 2012

Lembranças do Gin Tónico



"Era um fim de tarde, o momento de lazer mais apreciado por Tiago.
Quando o tempo lhe dava essa oportunidade, sentava-se na varanda, pegava no copo de gin tónico e languidamente desfrutava da paisagem sobre o Tâmega, ao fundo.
Toda a paisagem era de um verde alucinante. O preço a pagar, era a constante humidade durante todo o ano.
Ele dizia de forma também irónica, que a humidade era a sua vida, o seu prazer e a sua subsistência.
Não gostava do clima seco. Nem de dias secos. Assim, o gin era sempre um bom companheiro. Às vezes pregava-lhe umas partidas, mas o bom das ressacas é que sempre têm um fim.
E, o gin era leal, nada que ele conseguisse encontrar nas suas outras companhias.
O olhar de Tiago, estendia-se longo, distante, opaco e melancólico. Quem o conhecia, sabia o significado deste olhar vago, do que o provocava, dos fatores que para ele contribuíam e, faziam de Tiago essa pessoa em duas vertentes. O Eu e o Eu sou o que pareço."

Excerto

Armando Sena