quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Colheita de Incertezas




Se o primeiro livro nos marca, o segundo traz-nos ainda mais alegria pela consolidação do caminho antes iniciado, criando uma maior responsabilidade e esperança para os tempos que se seguem.

Surge assim, Colheita de Incertezas, o meu próximo livro, um romance centrado no Douro, que será apresentado no próximo mês.
Brevemente divulgarei aqui mais novidades.

Armando Sena

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Centelha


Esguio o calor que se desprende
Amaina mas não verga o tremor
Solta a vontade do momento
Mas lento anima a tímida dor

Efémero foi também o sentimento
Que fez brotar de novo verde esperança
Ergueu-se mais, deu-lhe livrança
Criou-lhe a própria emancipação
Sob o perene medo que escondia
De trazer de novo à luz do dia
A centelha que o desencanto ilumina
No outono desse descontentamento

Provocou a erupção da nostalgia
Dominante e cheia de fulgor
Levando a que a sempre eterna dor
Perceba que há um dia em que termina



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Estado da Nação




Agora que se estende a mão do vento
E pródiga te surge a crispação
Tudo de novo te recorda
O que foste nessa vasta imensidão
Das searas em que ceifaste ilusões
Cujo adubo eram sonhos começados
Que as pragas lentamente anteciparam
E as colheitas apenas confirmaram
Que o fruto era falho de sustento
E da alma te levou todo o alento

Nada mais que a eterna nostalgia
De deixar mais uma vez nesse pousio
O que antes solo fértil tinha sido
E agora entre o cheiro a bravio
Tão só azia e larvas produzia

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Lucidez




Não quero que os meus erros flutuem
para nunca se esquecerem, como sempre
se um dia houve, não um somente,
em que tão só a dúvida persistiu

Breve, leve, seguiu com a corrente
desdenhada, enjeitada, assim partiu
mas como morta ainda não estava
foi fácil e instantâneo o seu brotar

O espanto de então a ver voltar
questionar se a dúvida é legítima,
se tudo é mera ficção
ou certeza será apenas recordar

E para lá do infinito horizonte
onde tédio e medo se escondem
aí ela persiste em resistir,
na firme e inabalável sensatez
que a certeza reside em duvidar

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O nervosismo de Margarida






"Saiu do carro, deixou a porta aberta. De dentro, o rádio repetia os Rolling Stones e Angie era de novo a banda sonora dos seus momentos.
Margarida acendeu um cigarro, com o indicador da mão direita enrolou o cabelo, à altura do ombro. Algumas coisas não mudam, o gesto das mãos finas de Margarida, os longos dedos a enrolar o cabelo, tinham o mesmo glamour de sempre.
Margarida continuava bela, elegante, embora mais mirrada, marcada pela vida. Os socalcos do seu Douro, para além de terem um lugar na sua alma, também ganhavam terreno, em forma de rugas, na pele da sua cara.
Já não era a miúda que tinha chegado ali com um monte de ilusões. Por ela havia passado uma vida, muitas vidas. Hoje, no sentido literal da palavra, sabia muito bem o que queria.
Decidida como sempre quis ser reconhecida, pegou no envelope e começou por descolar o lado esquerdo da aba.
Parou, afinal até nas suas decisões estava menos intempestiva. Mais moderada, sentou-se numa pedra ao lado da capela de São Salvador do Mundo e acendeu mais um cigarro no que estava a terminar."

Excerto do meu próximo romance a ser publicado brevemente.