quinta-feira, 4 de abril de 2013

Surgi




Sou brisa, fruto fora de época
Do alto da montanha desci
Pelo vento norte trazido
Dei à costa em madrugada de bruma

Era para ser parto seguro
Em noite de lua cheia
Foi o que foi
Não a perfeição prevista
Nem o sonho destinado

Foi o fado fadado
Embalado no ritmo do advento
Rumando ao eterno almejado
Estorvado pelas pedras do caminho
Em doca seca ancorado

Sempre rumando ao crepúsculo
Em busca da nova aurora

quarta-feira, 20 de março de 2013

Sulcos de lava





Soltam-se dos dedos lava pura
O chão que a sustem não a espera
Rubra, leve, como a alma que transporta
Escorre pelos sulcos que outrora
Poesia brilhante recitavam
E agora de escuro se pintaram
Enrijeceram até à solidão
Aniquilados em frémito e tormento
De ter dado à peçonha seguimento
Mergulharam na profunda agonia
De ter em vão ampliado o sofrimento
Mas leve como o fogo é a paixão
Que liberta de novo o alento
E escorraça tudo o que era servidão.

domingo, 10 de março de 2013

Dança




na dança do teu ventre
me transportaste
dos dias em que foste lua cheia
das noites suaves
de céus alegres

não só do desvario
do movimento
do corrupio da ousadia
de tudo o que numa hora cabia

foste centelha de luz
em luar de janeiro
verde flor em seco prado
pasto de vontade desejado

mas…
o futuro é ali ao lado

domingo, 3 de março de 2013

longe


longe
na palma da mão recortada
pudera ser mais longe
se quisesse

no peito, na alma
mas não na esperança
aí seria demasiada
a distância

assim
num clique da lembrança
escorrendo pelos dedos
a presença
que a mente ocupa
e o peito enche
sabe-se sempre perto
e persistente

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Verde




Lembro-me do céu e do encanto
Da nova estação que se anunciava
Voltava após o tempo baço
De noites sem dia nem lembrança
Mas leve como leves são os sinais
Um som, um brilho, uma flor
Brotavam da terra árida pelo gelo
Das almas sedentas de verde esperança
Ténue despontava a vontade
Do sopro que antes congelava
E sem mais nem porquê já sussurrava
Que os dias eram de esperança
Apenas porque a primavera despontava