quarta-feira, 12 de junho de 2013

Olhos





Se os olhos contassem a tua história
Não traíssem como o fazem sem querer
Lembrassem tempos em que foste liberdade
Soubessem de que cor é a vontade

Interpretassem o murmúrio do desejo,
o que dizem lábios finos a tremer
Decifrassem o rubor do amor ardente
Mostrassem como é a dor da ausência
reflexo e espelho da saudade

Mentissem num não que era sim

Tudo isso é o seu poder
Soberania em duas esferas compactada
O supremo sentido do sentir
a mais pura face da verdade
Ecrã onde a alma é projetada

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ao leme



Queres-me um barco em mar sem vagas
Num porto onde descansa a valentia
Ancorado na solidez do sentimento
Pela excitação dos sonhos tripulado

Eu que o cabo das tormentas não dobrei
E a esperança persisto em rodear
Ao leme de uma balsa de resgate
Sem bússola nem estrela polar 

Sulcando mares, buscando a sedução
Que o vento da ousadia abandonou
Rasgo as mãos remando sem cessar
Rumando, ao teu farol, ao teu regaço

Com um sentido que requer orientação
Entre os polos navegando sem cessar
 

terça-feira, 28 de maio de 2013

Olhar





Será do vento que sopra desvairado
Do lado que foi o esquecimento
Cortante como a ausência da memória
Cruel ainda mais que a verdade

Do fogo que as cinzas consumiram
Espalhadas pelos cantos da lembrança
A ausência severa que me vence
Da luz que era a ténue esperança

Retirada dos despojos nova chama
Dos dias farás um novo archote
Que as horas te darão um novo mote
Para então recuperares das trevas

E descobrir no teu olhar
A luz que tão intensa me cegava

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Flor de Fruto



Se flor fosse, seria laranja
Oriunda do perfume intenso
Agora já fruto colorido
Surgido entre as tuas pétalas

Em casca rugosa cresceria
Que lisa e perfeita não é vida
Redonda seria como a lua
Cheia, em quartos dividida

Daria sumo que refresca a sede
Vitamina que anula a dor
Frescura em sol intenso
Cor, vida, sentimento

Se fruto for serei amora
Silvestre, nascida entre os espinhos
Adornada por flores de giestas
Colorida e intensa como a noite

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Semente


Tomo nas mãos o equilíbrio
Desatado que foi em dia Não

Na água que em teu rio desagua
Solto a pétala do ardor imenso
Da rosa que floriu por esquecimento

Em ondas descendentes sobre o leito
Repousa e desce flutuando

Será mar, nuvem, chuva, sentimento
Voltará alegre um fim de tarde
Dará vida ao que era já semente
Alimentará de novo a origem,
Essa fonte de onde vem o teu alento

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Um ponto



Esgotam-se os dias que faltam
para amanhecer
Romper como a luz da nova aurora
Faltam no entanto dias de mais.

Sinto a privação do cheiro a esperança
Invade-me a angústia da ausência
Assalta-me a lembrança
do que foi entardecer,
dos dias de liberdade infinita,
do que era meu sem restrições.

Levo então comigo a euforia
E volto leve com a ilusão

De ver-te nascer
Na boca espelhado um sorriso
Sentir que também sonhas com o luar
E confirmar que nada foi em vão

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Razão



A Razão

Esfumou-se nos dias que foram sentimento
Baço é agora o aroma que a evoca
Sentia que era luz que perseguia
Em vão, pois cego era o caminho

Do alto onde a saudade dominava
O nada era só um sentimento
Provindo do ventre
onde morria antes do parto

Restava o desejo
de ter o céu nas mãos

Será talvez da razão
ter perdido o sentido
Ou o sentido já não ter razão?