sexta-feira, 12 de julho de 2013

Ocaso





Em busca do efémero fim de tarde, corro
Para trás o dia inteiro, deixo
O alento da luz que se acaba, busco
A chama do desejo em ti, persigo

No aconchego da noite me oculto
No eterno da madrugada mergulho
No despontar da aurora desaguo
De um limbo eterno desponto

De volta a um ser desconhecido
Emanado da razão
Liberto do espírito sonhador
Subjugado ao prazer do real
 
No jazigo temporário permaneço
Até ao ocaso de um sol que há-de ser meu

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Domínio da Paciência





Não sei se um dia fui lembrança
Do tempo um rasto de vivência
Se da Lua roubei a eloquência
A emprestei a algo que esqueci
Dos dias retirei as horas mortas
Pendurei-as no pedestal da paciência
E à noite não consegui ressuscitá-las
Colecionei então apenas horas vivas
Longas, iníquas, infindáveis

Acordei

Não se dorme à eterna luz do dia
Era mais que tempo do resgate
Da lembrança retirei a escada
Perdi o respeito à paciência
Subi os degraus do seu altar
E repus a ordem do destino

É agora tempo de repousar.

domingo, 30 de junho de 2013

Entrega


Vejo-te na linha do horizonte
Recortada num cenário de saudade
Longe da vertigem
Entranhada na luz do pensamento

Perto do desejo
Penetrada pelo fogo do tormento

Sensual rodopiando no desfiar do tempo
Vivendo em mim sem visto
Nem salvo conduto

Apoderando-se do ultimo reduto
Tudo tomas, tudo usas
E eu estranhando porque não abusas
Tudo te entrego
Rogo em preces mudas

Que seja sempre teu
O que me preenche
 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Intemporal




Sem controlo
os dias esgotam-se
na ilusão da intemporalidade
deslizam entre as rugas da existência
correm que nem loucos
perdidos
nesse desfiladeiro enganador
que é a vivência temporal

Vivemos o que nos deixam
e um dia, diz-se,
morreremos como os demais.

O que se assemelha a uma sina
é talvez o mote da existência:
produzir, criar, amar e viver
pois certa, certa, só a vida
e intemporal, a lembrança.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Olhos





Se os olhos contassem a tua história
Não traíssem como o fazem sem querer
Lembrassem tempos em que foste liberdade
Soubessem de que cor é a vontade

Interpretassem o murmúrio do desejo,
o que dizem lábios finos a tremer
Decifrassem o rubor do amor ardente
Mostrassem como é a dor da ausência
reflexo e espelho da saudade

Mentissem num não que era sim

Tudo isso é o seu poder
Soberania em duas esferas compactada
O supremo sentido do sentir
a mais pura face da verdade
Ecrã onde a alma é projetada

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ao leme



Queres-me um barco em mar sem vagas
Num porto onde descansa a valentia
Ancorado na solidez do sentimento
Pela excitação dos sonhos tripulado

Eu que o cabo das tormentas não dobrei
E a esperança persisto em rodear
Ao leme de uma balsa de resgate
Sem bússola nem estrela polar 

Sulcando mares, buscando a sedução
Que o vento da ousadia abandonou
Rasgo as mãos remando sem cessar
Rumando, ao teu farol, ao teu regaço

Com um sentido que requer orientação
Entre os polos navegando sem cessar
 

terça-feira, 28 de maio de 2013

Olhar





Será do vento que sopra desvairado
Do lado que foi o esquecimento
Cortante como a ausência da memória
Cruel ainda mais que a verdade

Do fogo que as cinzas consumiram
Espalhadas pelos cantos da lembrança
A ausência severa que me vence
Da luz que era a ténue esperança

Retirada dos despojos nova chama
Dos dias farás um novo archote
Que as horas te darão um novo mote
Para então recuperares das trevas

E descobrir no teu olhar
A luz que tão intensa me cegava