quarta-feira, 11 de setembro de 2013

...um dia


um dia sem querer hei de escrever
as páginas soltas de uma vida

das minhas letras sairá a viva alma
o teu rosto em forma de um verso

um sorriso será a pontuação
das palavras que juntas o compõem
o teu jeito terá esse condão,
libertar a forma e o sentido

um dia terei essa ousadia
de pegar numa folha vazia
e enchê-la de todo o sentimento

não sei se o feito é de relevo
se não foi já mil vezes repetido
ou se daí virá algum remédio

Mas,
um dia sem querer hei de escrever
tudo aquilo que sempre um dia quis

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Dúvida



Sou restolho que o sol mirrou
Poeira que o vento endoideceu
Horas que um dia concedeu
Tempo que a luz alimentou
E o desejo apenas permitiu

Sou conclusões de fim de verão
Ânsia da frescura prometida
Colheita há muito esperada
Fim do estio programado
Promessa de um novo ciclo desejado

Será que serei o que seria
Se a vida só tivesse por um dia
E tudo não seguisse o mesmo mote?

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Toque


Não busco na sombra do destino
O rasto de um sopro que eras tu
O aroma do teu corpo deslizante
O sabor de um momento que foi nosso

Um ventre onde ancorava a minha barca
O aconchego da memória inoportuna
Dos lábios onde cabia o desejo

O som de cítaras vibrando
Num melódico trecho musical
Interpretado por solista virtuoso
Que mesmo num desempenho divinal
Sucumbia ao prazer de imaginar
O solo mais pungente conhecido
O murmurado som da tua voz

Busco num cenário conhecido
Que me leva a um estado divinal
E tudo que se diga é desigual
Ao toque das tuas mãos nas minhas

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Miragem


À luz da lua que brilhou no teu deserto
Que iluminava um oásis que era meu
E verde como a esperança alimentava
Um desejo que vendia esperança

Dispo-me de toda a amargura
Da seara que cresceu em peito aberto
Do centeio que a ceifa prometeu
E de tudo o que um dia era meu

Mas as cores também vacilam
A luz, mesmo a mais forte desvanece
Difusa torna-te distante
E o oásis que era o fim do teu caminho
Funde-se na ilusão de um destino
Pura miragem, desatino

E aí te mantém, perdido, errante 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Sinais dos tempos





Sempre sabe a pouco a virtude
Opulenta que pareça e desabrida
Mesmo que em bandeja oferecida

Mansa dádiva em mão estendida
Sempre será mais vistosa e pretendida
A lábia e trôpega falácia

A que floresce em meninos de carreira
Exorta sempre a verborreia
Resulta como nada em estrumeira
E descamba no final em implosão

Nada a poderia sustentar
Oca, vaga, de lascar
Alimenta simplesmente a ilusão
Do ciclo da burrice propagar

Mas quando de madura cai
É sempre em vão

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Ocaso





Em busca do efémero fim de tarde, corro
Para trás o dia inteiro, deixo
O alento da luz que se acaba, busco
A chama do desejo em ti, persigo

No aconchego da noite me oculto
No eterno da madrugada mergulho
No despontar da aurora desaguo
De um limbo eterno desponto

De volta a um ser desconhecido
Emanado da razão
Liberto do espírito sonhador
Subjugado ao prazer do real
 
No jazigo temporário permaneço
Até ao ocaso de um sol que há-de ser meu

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Domínio da Paciência





Não sei se um dia fui lembrança
Do tempo um rasto de vivência
Se da Lua roubei a eloquência
A emprestei a algo que esqueci
Dos dias retirei as horas mortas
Pendurei-as no pedestal da paciência
E à noite não consegui ressuscitá-las
Colecionei então apenas horas vivas
Longas, iníquas, infindáveis

Acordei

Não se dorme à eterna luz do dia
Era mais que tempo do resgate
Da lembrança retirei a escada
Perdi o respeito à paciência
Subi os degraus do seu altar
E repus a ordem do destino

É agora tempo de repousar.