terça-feira, 1 de outubro de 2013

Simetrias




Sentei-me à janela do tempo
Não me lembro de quando me encontrei
Se no limite do ocaso
Num silvo do medo
Num pingo de chuva fora de tempo
Na fresca gota de orvalho
Ou apenas pela rua divagando

Abrigado pela sombra de um vento desmedido
Entre os secos ramos da solidão perdido
Envolto na penumbra de um destino inacabado

Fechei de novo a portada
Regressei a um tempo que controlo
Na folha despejei mais uns suspiros
Do copo sorvi um novo fôlego
E do calor do fogo um novo alento

Lá fora cai a chuva de outono
Batida pelo vento que alimenta
cá dentro o fogo do encanto

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Sorriso





Não me desvendes o sentir
Sou sopro de um vento que sonhaste
Liberto corri por entre os lábios
Numa noite em que o sonho transbordou
E o reflexo incontrolável da alma
se espelhou

Não busques a chave
que decifra o enigma
Desígnio de um sonho infundado
Pretenso desejo exagerado
remédio da ventura
ou sentimento imaculado

Não busques, para quê?

Tudo isso é ofuscado pelo traço
Subtil, matreiro, maroto, sensual
O único sentido do sentir
Um Sorriso nos lábios espelhado

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

...um dia


um dia sem querer hei de escrever
as páginas soltas de uma vida

das minhas letras sairá a viva alma
o teu rosto em forma de um verso

um sorriso será a pontuação
das palavras que juntas o compõem
o teu jeito terá esse condão,
libertar a forma e o sentido

um dia terei essa ousadia
de pegar numa folha vazia
e enchê-la de todo o sentimento

não sei se o feito é de relevo
se não foi já mil vezes repetido
ou se daí virá algum remédio

Mas,
um dia sem querer hei de escrever
tudo aquilo que sempre um dia quis

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Dúvida



Sou restolho que o sol mirrou
Poeira que o vento endoideceu
Horas que um dia concedeu
Tempo que a luz alimentou
E o desejo apenas permitiu

Sou conclusões de fim de verão
Ânsia da frescura prometida
Colheita há muito esperada
Fim do estio programado
Promessa de um novo ciclo desejado

Será que serei o que seria
Se a vida só tivesse por um dia
E tudo não seguisse o mesmo mote?

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Toque


Não busco na sombra do destino
O rasto de um sopro que eras tu
O aroma do teu corpo deslizante
O sabor de um momento que foi nosso

Um ventre onde ancorava a minha barca
O aconchego da memória inoportuna
Dos lábios onde cabia o desejo

O som de cítaras vibrando
Num melódico trecho musical
Interpretado por solista virtuoso
Que mesmo num desempenho divinal
Sucumbia ao prazer de imaginar
O solo mais pungente conhecido
O murmurado som da tua voz

Busco num cenário conhecido
Que me leva a um estado divinal
E tudo que se diga é desigual
Ao toque das tuas mãos nas minhas

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Miragem


À luz da lua que brilhou no teu deserto
Que iluminava um oásis que era meu
E verde como a esperança alimentava
Um desejo que vendia esperança

Dispo-me de toda a amargura
Da seara que cresceu em peito aberto
Do centeio que a ceifa prometeu
E de tudo o que um dia era meu

Mas as cores também vacilam
A luz, mesmo a mais forte desvanece
Difusa torna-te distante
E o oásis que era o fim do teu caminho
Funde-se na ilusão de um destino
Pura miragem, desatino

E aí te mantém, perdido, errante