terça-feira, 8 de abril de 2014

Um Rio



Se fosse o leito de um rio
sereno correndo para o fim
o início de um sonho relembrado
por um vento que sopra o teu aroma
Seria eu próprio a lembrança
dos dias que navegámos sentimentos

Nas margens desse sonho me retinhas
essas águas tomavas em teu regaço
e no ardil desse leito me possuías

Porque um rio
só é livre num sentido,
já que único é o seu destino
domado é todo o seu movimento
e sempre se entrega num espasmo
a um mar que o toma sem ressalvas
Num só se fundem
como se nada mais existisse
apenas duas partes moldadas
num jogo sem regras nem deveres!

segunda-feira, 31 de março de 2014

Encruzilhada


Os dias, apesar de sempre iguais, passados na rotina exasperante a que se tinham habituado, escorriam por entre os dedos com a mesma rapidez que passavam àqueles que se encontravam no mais paradisíaco dos destinos turísticos.

Tem destas ironias a vida, democraticamente impõe os seus desígnios. Não prolonga a duração dos momentos de sofrimento, mas também não alarga os momentos de prazer. Uma hora tem sempre sessenta minutos, a intensidade com que se vivem é que varia, o resto é apenas metafísica.


segunda-feira, 24 de março de 2014

Um ponto






Um ponto
Um barco
 na linha do horizonte
O sol que se esconde intrigado

A mensagem
 do que foi um sobressalto
Algures
 no recanto do momento
Assinalado
 pelo farol da sintonia
Envolto
 nas ondas do querer
Sopro
 de um vento que fugaz
te faz navegar
para um porto de acalmia

Simples, efémero
Intenso, murmurante
um momento
Ou apenas uma vida

terça-feira, 18 de março de 2014

Um dia




Não preciso o mundo possuir
Ter dos arsenais o controlo total
Nas mãos abarcar o por do sol
Ser dono do casino que é a vida

Gestor de um bordel transfronteiriço
onde se aliviam mágoas
e se atiçam fráguas

Não quero dominar a primavera
Da lua retirar o brilho
Nem o sol suster no horizonte

Para quê o Mundo possuir
Se um sorriso na tua cara
vale o mundo?

terça-feira, 11 de março de 2014

Repousar



Quero descansar num leito brando
Rodear-me do aconchego da ternura
Embebido pelas cores de um sonho vago
Pintado em aguarela de tons quentes

Não vou remar
contra o desígnio do descanso
Enfrentar o ócio que me vence
Tecer desafios contra o nunca
Cavalgar nas ondas da refrega

Ensaiar uma tática ofensiva
ou esgrimir argumentos de defesa
a um apetecível desejo de serenar
a vontade de ser aprisionado
pelos braços esperados do desejo

Basta o suave enleio de uns braços
O infinito condensado nesta tela

Aqui, vou apenas repousar

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O sonho de Orfeu



Sublime é o saber desse sentir
Na curva que envolve o teu sorriso
O dom que só possui o sentimento
O sabor de beber o teu olhar
Que vaga nas ondas do desejo
Soprado pela brisa da saudade

Conseguir na retina o teu suspiro fixar
No instante que possui um por do sol
Completa a certeza do encanto
Do mundo condensado num momento

Se vida existe no sonhar
Onde irrompes subtil sem o pedir
E marcas indelével o porvir

Vivê-la é um destino fatal

domingo, 16 de fevereiro de 2014

No cinzento


Quem me dera ser fim de inverno
Às malvas mandar os dias tristes
Esquecer que fui vento, frio, chuva
Que despido enfrentei o gelo atroz
Perdido em cinzento nevoeiro
Sem luz, farol ou lua cheia

Quem me dera vestir a cor e a luz
Em dias que se eternizam
Sem temor de pela noite entrar

Ser cheiro a feno, papoilas e flor de giesta
Abraçar o sol por quem tanto esperei
E dormir sob uma cheia lua de utopias
Num sonho onde domina a esperança

Quem me dera o poder ter
De todos os invernos terminar