terça-feira, 27 de maio de 2014

Difusa


No que se torna a ténue réstia de histeria
Que os longos dias de maio alimentaram
Fizeram criar no teu encanto
A liberdade de um sonho adormecido

Difusa se tornou a lembrança
do calor que emana da tua voz
do som vibrante do teu olhar
percorrendo o universo que há em mim

Suave é a ternura do encanto
Como leve o ondular de um desejo
O voltar da cabeça, um lampejo

A serenidade recortada
na curva de uns lábios
onde mergulho

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Tangível


Consulto o calendário intemporal
Das horas que vivemos sem saber
Do tempo que infinito imaginava
Embora contado em minutos
De um todo que era apenas
Uma ínfima parte do prazer

Consumimos os segundos dos momentos
Que a areia branca acolhia
E em palavras entrecortadas
O vento contrafeito sussurrava

Perdia-me num refúgio imaginário
Convertido no único sentido possível
Que os dias podiam almejar

Seria assim tangível o irreal
Ou a vontade de o infinito alcançar?

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Caminho


Na complexa e tortuosa demanda
do fio dos dias conquistar
as marcas das pegadas apagar
almejando um descanso imaginado

Abriguei-me numa chuva de delírios
expus-me à sombra
de uma aragem persistente
na esperança de assim, seduzido
poder num fim de tarde descansar

Mas sendo certo e fatal
integrando o manual da alquimia e
colorindo os compêndios da memória
nem todas os dias são tardes de domingo
nem todo o vento é pronúncio de encanto

Afinal emparedado entre dois lóbulos
desfocado pela ausência e o descrer
era só mais uma etapa ultrapassada
dos caminhos que assaltam a lembrança

sexta-feira, 2 de maio de 2014

À mãe



Graça entrou com um saco na mão, pousando-o ao lado do pai, abraçou-o longamente depositando-lhe um beijo na face.
Sem palavras, porque são estas que tantas vezes, estorvando, nos tolhem o exteriorizar de sentimentos, dirigiu-se à ainda estática Augusta.
Sentou-se no seu colo, verteu a saudade em suspiros, deixou-se trespassar pela emoção e rodeando-lhe o pescoço com os braços, exclamou:

- Mãe, como tive saudades tuas!

terça-feira, 22 de abril de 2014

Vaga


vago o olhar nas vagas
que trazem sons de um local
que já foi meu

leal em espera absoluta
absorto com o mesmo objetivo
sentindo o vazio do sentido
e o vagar do espaço que foi teu
a meu lado,
um fiel amigo resistente

não me espanto com o silêncio
não quero saber do que já sei
deixarei em vão bater as vagas
assim estático, imóvel, permanecerei

sentindo o suave do sentir
bebendo a beleza deste quadro
este mundo etéreo que me é dado
sem pressa nem vontade de voltar
aqui, ternamente, hei de ficar

terça-feira, 15 de abril de 2014

A Ponte


De um lado
o sol que me invade os sentidos
Nas costas
uma sombra que me tolhe a destreza

Num misto de desejo bipolar
De saltar rumo à liberdade
Ou ficar no meu desassossego

Fugir sem rumo nem destino
Ou recostar-me no sedentário conforto
da apatia

Às malvas atirar o desatino
Da calma recolher o agasalho
Despir-me da capa de aconchego
Ou rumar à eterna fantasia

No meio de pontos extremados
Divididos pelo caudal da sensatez
Corre lento o rio do viver

A uni-los, uma ponte de evasão

terça-feira, 8 de abril de 2014

Um Rio



Se fosse o leito de um rio
sereno correndo para o fim
o início de um sonho relembrado
por um vento que sopra o teu aroma
Seria eu próprio a lembrança
dos dias que navegámos sentimentos

Nas margens desse sonho me retinhas
essas águas tomavas em teu regaço
e no ardil desse leito me possuías

Porque um rio
só é livre num sentido,
já que único é o seu destino
domado é todo o seu movimento
e sempre se entrega num espasmo
a um mar que o toma sem ressalvas
Num só se fundem
como se nada mais existisse
apenas duas partes moldadas
num jogo sem regras nem deveres!