terça-feira, 26 de abril de 2016

Encoberto


Após os ínfimos momentos
de um inverno triste
amofinados na mortalha
da fina e rendilhada morrinha
que de forma persistente
possuía tudo o que ansiava
transformar em luz
o escuro imponente de um sussurro
liberto no esplendor da planície.

Da construção de versos se fez obra
E tudo ressuscita num poema
sob um sol de primavera envergonhada
pois que a vida se resume
ao infinito dos dias de maio

terça-feira, 19 de abril de 2016


Lá, onde a vista suporta a ilusão
Toda a existência era bebida
Num trago que embora efémero
Era eterno

Dos séculos que passaram
Retidos ficaram os sonhos

Não acaba numa geração
O que é eterno

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Ilha da saudade



No volátil sabor das palavras vãs
Sustidas no estremecimento
De um silêncio oculto pelo
Pleno sussurrar das searas
Em dias em que o esquecimento
Imperou sobre todos os males
E ao fundo, nas entranhas de uma ilha
Chamada saudade, repouso
A Lembrança
Hoje só o sossego tem lugar

No canto onde se guardam os tesouros

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Clareira


Não me refugio no ventre do estio
Embora por vezes o cansaço
Me force a repousar na imensidão
De coisas que outrora foram limbo
Força-me o brilho da sombra a prosseguir
Recusam-se os nervos e a vontade
Na clareira basta da pacatez
Rodeada da imensidão da floresta
Onde agora se perde a lembrança
Do sol que emergia em vigor
E da frescura que um traço
Um timbre
Um gesto
Fazia emergir

O sobrenatural sob o crepúsculo

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Equação indeterminada


Queria ser do infinito pertença
Correr nos limites de um conjunto vazio
Ser a interseção de um volume abstrato
Resultado de equação indeterminada
Resto de um quociente divisível
A tender para um ponto indefinível
Cujas coordenadas se projetam
Num plano sem pontos de referência
Tangente a uma curva sem raio
Presente apenas nos momentos
Em que o domínio da consciência é

geométrico

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Os sons do silêncio



Sentado, ouvindo o som de um pássaro
que livre dizimava a solidão
de todos aqueles que em redor
apertados no espartilho de dias perdidos
buscavam a aurora esbatida
das manhãs que tardavam em ser dia

Levantou-se, cismado no silêncio
olhando em redor o horizonte
não havia cor, brilho, prado ou monte
das paredes brotava o som estridente
o murmúrio dos momentos
não lamentos
mas vida que se fez de agitação

Sentou-se de novo
se paz em algum mundo havia

toda aí estava concentrada

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Um conjunto de Nada


O tecido em que se estampou a artimanha
Tinha por base a honradez
Tecida com fios de bondade
Cosido por laivos de inocência
Bordado em singelas nervuras de encanto
De tímidos recortes debruado
Na singeleza de um sorriso embainhado
Era um todo de ironia almofadado
Engano puro, embuste traiçoeira
Vã rasteira, fútil presunção
Afinal era só pérfida ilusão
Rematada por mesquinha
Rasteira e vil soberba
Era um vazio conjunto de

Nada