domingo, 1 de maio de 2016

Mãe é um sentimento


Sobrou-nos tempo
Porque nunca falta o tempo
Para saborearmos os tempos
A vida, as agruras as dificuldades
Os tempos de alegria
De vontade
De pertença
De esperança
De partilha
De vida
Esgotou-se o tempo
Mas sempre será tempo
De celebrar o tempo
Que juntos passámos.
Mãe é um sentimento

terça-feira, 26 de abril de 2016

Encoberto


Após os ínfimos momentos
de um inverno triste
amofinados na mortalha
da fina e rendilhada morrinha
que de forma persistente
possuía tudo o que ansiava
transformar em luz
o escuro imponente de um sussurro
liberto no esplendor da planície.

Da construção de versos se fez obra
E tudo ressuscita num poema
sob um sol de primavera envergonhada
pois que a vida se resume
ao infinito dos dias de maio

terça-feira, 19 de abril de 2016


Lá, onde a vista suporta a ilusão
Toda a existência era bebida
Num trago que embora efémero
Era eterno

Dos séculos que passaram
Retidos ficaram os sonhos

Não acaba numa geração
O que é eterno

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Ilha da saudade



No volátil sabor das palavras vãs
Sustidas no estremecimento
De um silêncio oculto pelo
Pleno sussurrar das searas
Em dias em que o esquecimento
Imperou sobre todos os males
E ao fundo, nas entranhas de uma ilha
Chamada saudade, repouso
A Lembrança
Hoje só o sossego tem lugar

No canto onde se guardam os tesouros

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Clareira


Não me refugio no ventre do estio
Embora por vezes o cansaço
Me force a repousar na imensidão
De coisas que outrora foram limbo
Força-me o brilho da sombra a prosseguir
Recusam-se os nervos e a vontade
Na clareira basta da pacatez
Rodeada da imensidão da floresta
Onde agora se perde a lembrança
Do sol que emergia em vigor
E da frescura que um traço
Um timbre
Um gesto
Fazia emergir

O sobrenatural sob o crepúsculo

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Equação indeterminada


Queria ser do infinito pertença
Correr nos limites de um conjunto vazio
Ser a interseção de um volume abstrato
Resultado de equação indeterminada
Resto de um quociente divisível
A tender para um ponto indefinível
Cujas coordenadas se projetam
Num plano sem pontos de referência
Tangente a uma curva sem raio
Presente apenas nos momentos
Em que o domínio da consciência é

geométrico

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Os sons do silêncio



Sentado, ouvindo o som de um pássaro
que livre dizimava a solidão
de todos aqueles que em redor
apertados no espartilho de dias perdidos
buscavam a aurora esbatida
das manhãs que tardavam em ser dia

Levantou-se, cismado no silêncio
olhando em redor o horizonte
não havia cor, brilho, prado ou monte
das paredes brotava o som estridente
o murmúrio dos momentos
não lamentos
mas vida que se fez de agitação

Sentou-se de novo
se paz em algum mundo havia

toda aí estava concentrada