quinta-feira, 18 de abril de 2019
quarta-feira, 27 de março de 2019
O velho moínho
Do
ribeiro que corria no limite visível da rocha que se estendia ainda dois metros
para lá dos seus pés, retinha os murmúrios do apressado das águas.
Deitado de costas na rocha lisa olhava para o céu onde flocos cinzentos claros
de nuvens se recortavam no azul mais azul que ele conhecia: o céu de
Lamadeiras.
Envolto
por amieiros e encimado pelo velho e desativado moinho, o ribeiro criava um
pequeno lago que refletia o verde escuro das folhas de carvalho que começavam a
despontar naquela altura do ano. Era bom regressar aqui. Como se sentia em paz
com o seu reino! Que bom era beber o ar das origens! Para que inventamos coisas
quando a felicidade é tão pouco?
quinta-feira, 21 de março de 2019
O rosto
Risco no vácuo da distância
Linhas que contornam o desejo
O aprisionam num lampejo
Eterno que se esgota num segundo
Efémero, é verdade
Mas intenso, contendo o mundo
Por esses olhos onde brotam infinitos
Cadentes, brilhantes, desumanos
E nada para além deles existe
Pois mesmo nada mais é necessário
Tudo contido num imaginário
Rosto, fino, belo que existe!
segunda-feira, 11 de março de 2019
O caminho
E se um dia acordasse a primavera
Desdobrasse as rugas de fevereiro
Num canto arrumasse adventos
Outonos que ecoam eternamente
E no armário do passado os enterrasse
Verdes, calmos, desenharia caminhos
Suspensos por estrelas brilhantes
Que nem aurora nem destino indicassem
Nada, nada, nada.
Tudo seria uma viagem
Percorrida entre os equinócios esquecidos
Projetada no universo intemporal
Recortada pela luz do infinito
O caminho seria tudo!
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
Resiste
A
nostalgia dos meses anteriores, a triste alegria, porque efémera, de quem
antevê um futuro implacável, um prenúncio de cessação de direitos, um confronto
com o real, indecifrável e invencível mundo que o esperava. Tudo isto criava em
si um efeito anestésico das amarguras atuais. A raiva bloqueava os sentidos,
limitava a dor e a revolta.
Do vento,
uivando lá fora, que o frio trazia, nada esperava. No meio das mãos em concha, a
ilusão, no som do sorriso, a emoção. Por trás dos silvos das serras, a
lembrança, toda a que o infinito não apaga, perene, persistente e inabalável. Sabe-se,
não se prescreve, resiste
segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
Do cume da incerteza
Mas
até no recôndito limite da incerteza se encontram energias para alimentar a
esperança. E essa vinha essencialmente, gratuita e inevitável, das leis da astrofísica.
Os dias cada vez maiores, a neve a derreter no cume das serras, as frieiras a
desaparecerem e o cheiro a Primavera a aproximar-se. Assim, grátis, servido
pelos deuses sem contra indicações, surgiam os primeiros sinais de que o pior
estava a passar. A primeira metade do ano em “exílio” estava a esgotar-se.
sexta-feira, 6 de julho de 2018
Vilares
Escorrem-me os sonhos por entre os montes
Nem sempre desaguam onde deviam
Pelas encostas crescem
Criam vida própria
Rebelam-se
Exigem tempo, presenças
Falam-me de outros tempos
Sussurram-me o teu nome
Vivem de ti
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