segunda-feira, 27 de julho de 2020

O dia, um dia!



Não há sol nem lua nem tremor
Aquieto-me entre a leve brisa do olhar
Retenho-me na lembrança do orvalho
Daqueles dias em que o fim era o infinito
Eles que tão-pouco queriam terminar
E neles mergulhavam os sonhos
Viviam assim, em paralelo
De mão dada com o desejo
E nós, deitados,
de olhos fixos no vazio
Vagueávamos, sem rumo nem lembrança
O dia era o hoje
Mais nada existia
E para quê?

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Fluir entre o nada e o infinito



De dentro vem o chilrear dos tempos
Das coisas que sozinhas se desvendam
Do som da chuva retenho a lembrança
De dias em que apenas um sorriso era tudo
Em que um gesto desvendava o infinito
O lento deslisar no insensível cristal brilhante
Que ganhava vida em letras espontâneas
Sílabas que ditavam sensações
Palavras que escorriam ávidas
Frases que mesmo incompletas
Diziam o que faltava nos dias sombrios
Criavam tremores
Ditavam receios
Alimentavam a alma

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Sombra



Escondes-te atrás de um gesto despreocupado
Em vão, pois não é o contraluz que te elimina
Rendes-te, num simples esmorecer 
Mas moves-te, és vida, fixas a lembrança
És raio de sombra, em contraponto
que a vida não é só de figuras principais
e ao infinito nos leva a vontade.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Eternamente




Nada nos é tão próximo e intrinsecamente ligado como o dia do nosso aniversário. Connosco nasce e, por vezes, connosco morre.
Por vezes, sim, porque bastas vezes perdura para além do aniversariante. Para muitos, pouco mais que horas, para outros, meses, até anos. Para muito poucos, perdurará eternamente.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Arçã




Nas encostas que rodeavam a aldeia despontava um manto alvo de flores. As giestas, numa orgia de cor branca, criavam a sensação de que as nuvens pousavam na terra. Não se posicionavam entre a lua e um qualquer sentimento terreno, mas tomavam elas próprias um lugar físico, palpável, perto de si.
A arçã ou rosmaninho, como se quisesse apelidar esta planta com flor icónica que a transformava quase que numa bandeira de orgulhosa interioridade.

quinta-feira, 18 de abril de 2019


Há livros que se abatem sobre nós e nos desmoronam. Este foi um deles.

quarta-feira, 27 de março de 2019

O velho moínho



Do ribeiro que corria no limite visível da rocha que se estendia ainda dois metros para lá dos seus pés, retinha os murmúrios do apressado das águas. Deitado de costas na rocha lisa olhava para o céu onde flocos cinzentos claros de nuvens se recortavam no azul mais azul que ele conhecia: o céu de Lamadeiras.
Envolto por amieiros e encimado pelo velho e desativado moinho, o ribeiro criava um pequeno lago que refletia o verde escuro das folhas de carvalho que começavam a despontar naquela altura do ano. Era bom regressar aqui. Como se sentia em paz com o seu reino! Que bom era beber o ar das origens! Para que inventamos coisas quando a felicidade é tão pouco?