quinta-feira, 21 de março de 2019

O rosto




Risco no vácuo da distância
Linhas que contornam o desejo
O aprisionam num lampejo
Eterno que se esgota num segundo

Efémero, é verdade
Mas intenso, contendo o mundo
Por esses olhos onde brotam infinitos
Cadentes, brilhantes, desumanos

E nada para além deles existe
Pois mesmo nada mais é necessário

Tudo contido num imaginário
Rosto, fino, belo que existe!

segunda-feira, 11 de março de 2019

O caminho




E se um dia acordasse a primavera
Desdobrasse as rugas de fevereiro
Num canto arrumasse adventos
Outonos que ecoam eternamente
E no armário do passado os enterrasse

Verdes, calmos, desenharia caminhos
Suspensos por estrelas brilhantes
Que nem aurora nem destino indicassem
Nada, nada, nada.
Tudo seria uma viagem
Percorrida entre os equinócios esquecidos
Projetada no universo intemporal
Recortada pela luz do infinito
O caminho seria tudo!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Resiste



A nostalgia dos meses anteriores, a triste alegria, porque efémera, de quem antevê um futuro implacável, um prenúncio de cessação de direitos, um confronto com o real, indecifrável e invencível mundo que o esperava. Tudo isto criava em si um efeito anestésico das amarguras atuais. A raiva bloqueava os sentidos, limitava a dor e a revolta.
Do vento, uivando lá fora, que o frio trazia, nada esperava. No meio das mãos em concha, a ilusão, no som do sorriso, a emoção. Por trás dos silvos das serras, a lembrança, toda a que o infinito não apaga, perene, persistente e inabalável. Sabe-se, não se prescreve, resiste

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Do cume da incerteza



Mas até no recôndito limite da incerteza se encontram energias para alimentar a esperança. E essa vinha essencialmente, gratuita e inevitável, das leis da astrofísica. Os dias cada vez maiores, a neve a derreter no cume das serras, as frieiras a desaparecerem e o cheiro a Primavera a aproximar-se. Assim, grátis, servido pelos deuses sem contra indicações, surgiam os primeiros sinais de que o pior estava a passar. A primeira metade do ano em “exílio” estava a esgotar-se.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Vilares



Escorrem-me os sonhos por entre os montes
Nem sempre desaguam onde deviam
Pelas encostas crescem
Criam vida própria
Rebelam-se
Exigem tempo, presenças
Falam-me de outros tempos
Sussurram-me o teu nome
Vivem de ti

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Um lugar



Sei de um lugar onde moram encantos
Onde os murmúrios lembram o desejo
Sente-se a beleza dos dias cálidos
Vê-se para lá do infinito
De lá se abarca uma vida
Circunscreve-se o sentir
Sabe-se que lá é o paraíso
E lá um dia voltaremos
Porque de voltar é feita a vida

domingo, 18 de março de 2018

Paridade



Escrevo, corrijo, apago
Desisto, fujo, em vão
Começo, recomeço
Desenho, soletro
Algo mais que um risco
Uma palavra, uma frase
E porquê?
Que há assim tão importante por dizer?
Tudo, nada
Nada é preciso escrever
Lês-me numa folha em branco
Desvendas-me mesmo sem me ler