segunda-feira, 3 de junho de 2019

Eternamente




Nada nos é tão próximo e intrinsecamente ligado como o dia do nosso aniversário. Connosco nasce e, por vezes, connosco morre.
Por vezes, sim, porque bastas vezes perdura para além do aniversariante. Para muitos, pouco mais que horas, para outros, meses, até anos. Para muito poucos, perdurará eternamente.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Arçã




Nas encostas que rodeavam a aldeia despontava um manto alvo de flores. As giestas, numa orgia de cor branca, criavam a sensação de que as nuvens pousavam na terra. Não se posicionavam entre a lua e um qualquer sentimento terreno, mas tomavam elas próprias um lugar físico, palpável, perto de si.
A arçã ou rosmaninho, como se quisesse apelidar esta planta com flor icónica que a transformava quase que numa bandeira de orgulhosa interioridade.

quinta-feira, 18 de abril de 2019


Há livros que se abatem sobre nós e nos desmoronam. Este foi um deles.

quarta-feira, 27 de março de 2019

O velho moínho



Do ribeiro que corria no limite visível da rocha que se estendia ainda dois metros para lá dos seus pés, retinha os murmúrios do apressado das águas. Deitado de costas na rocha lisa olhava para o céu onde flocos cinzentos claros de nuvens se recortavam no azul mais azul que ele conhecia: o céu de Lamadeiras.
Envolto por amieiros e encimado pelo velho e desativado moinho, o ribeiro criava um pequeno lago que refletia o verde escuro das folhas de carvalho que começavam a despontar naquela altura do ano. Era bom regressar aqui. Como se sentia em paz com o seu reino! Que bom era beber o ar das origens! Para que inventamos coisas quando a felicidade é tão pouco?

quinta-feira, 21 de março de 2019

O rosto




Risco no vácuo da distância
Linhas que contornam o desejo
O aprisionam num lampejo
Eterno que se esgota num segundo

Efémero, é verdade
Mas intenso, contendo o mundo
Por esses olhos onde brotam infinitos
Cadentes, brilhantes, desumanos

E nada para além deles existe
Pois mesmo nada mais é necessário

Tudo contido num imaginário
Rosto, fino, belo que existe!

segunda-feira, 11 de março de 2019

O caminho




E se um dia acordasse a primavera
Desdobrasse as rugas de fevereiro
Num canto arrumasse adventos
Outonos que ecoam eternamente
E no armário do passado os enterrasse

Verdes, calmos, desenharia caminhos
Suspensos por estrelas brilhantes
Que nem aurora nem destino indicassem
Nada, nada, nada.
Tudo seria uma viagem
Percorrida entre os equinócios esquecidos
Projetada no universo intemporal
Recortada pela luz do infinito
O caminho seria tudo!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Resiste



A nostalgia dos meses anteriores, a triste alegria, porque efémera, de quem antevê um futuro implacável, um prenúncio de cessação de direitos, um confronto com o real, indecifrável e invencível mundo que o esperava. Tudo isto criava em si um efeito anestésico das amarguras atuais. A raiva bloqueava os sentidos, limitava a dor e a revolta.
Do vento, uivando lá fora, que o frio trazia, nada esperava. No meio das mãos em concha, a ilusão, no som do sorriso, a emoção. Por trás dos silvos das serras, a lembrança, toda a que o infinito não apaga, perene, persistente e inabalável. Sabe-se, não se prescreve, resiste