quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Bocejo


Paro num assomo de deslumbre
Pausando a jornada fatigante
Desligo-me do óbvio serpentear
Da urgência de o nada acabar
E continuar na inócua tarefa
De dar corda a um relógio
Com ponteiros mas sem marcas

Imerjo num abstrato sentimento
Absorvo as notas soltas do momento
Tento captar os aromas
De um dia de outono extenuante

Não sei se esta música era para mim
Se o desempenho é apropriado
Ou um misto de desdém desafinado

Mas, que importa a dúvida momentânea
Dada a alegria do momento
Utopia, talvez, mas num instante
Tomei o mundo num bocejo
Libertei-me das garras do real

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Reflexão de um ser ausente



Na complexa teia onde me sento
Divagam tons de luz sem piedade
Progridem por entre os nós
de um rendilhado
Penetram em todos nós
Que absortos nos mantinha-mos

Eu que só queria contemplar o invisível
chapinhar das sereias da represa
Deixar que fosse o nada e ele apenas
a levar-me por entre a plenitude
do vazio

Virar as costas ao real
Estender as pernas, divagar
Subir ao mais alto cume,
em pensamento
Divisar a plenitude do momento
Sem do meu descanso abdicar

Ausente, apenas um instante
Ou toda a vida

que num momento coubesse

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Tocas-me


Tocas-me
com mãos que conhecem os meus acordes
dedilhas as notas todas que há em mim

Das cordas
que revelam as minhas histórias
extrais sons evocando o por do sol
num ritmo em que tenso me possuis

e

Ressoando no interior de mim
prolonga-se o eco do desejo
uníssono,  possuído pelo momento

Colas-me ao teu ventre em harmonia
libertas-me num momento de magia
num alinhamento temperado
que só o som da cumplicidade proporciona

Vibras-me a alma
Nasço da ponta dos teus dedos

Sou música!

sábado, 6 de setembro de 2014

Feito


O brilho de uma luz apenas imaginada
Que o esforço tornou no sonho vislumbrado
O suor de dias frios e horas de trabalho alimentavam

Invade-nos então deslumbrante
e estridente como um sopro
Penetra no ar recetivo de uma vida
O supremo saber do que é uma certeza

Não foi em vão o desafio
Num querer que
embora ameaçado
nunca vacilou

   Nem sempre borboletas coloridas
   Povoam verdes e luxuriantes paraísos

Valeu a pena, vale sempre,
manter a janela aberta para a Esperança

Feito

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Salpicos


Salpicos de sombras insidiosas
Em solo que um dia a dor lavrou
Invocam sois de agosto inclementes
Penetrando na aridez de um lamento

Não sei se um dia tem lembrança
Se fica para sempre a imensidão
De momentos que eram sempre infinitos

ou

Será apenas a visão de um anseio
e da bruma emergem letras
com que se escreve Sentimento?

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Simples


Corre fresca uma brisa ao fim da tarde
Num tempo de estio adiado
Embora de alegria polvilhado
De um vento onde está escrito o teu sorriso

Vindo de onde foi anunciado
Tal e qual como o programado
Se torna real a emoção

Em paz se converteu o emaranhado
Conforto da vista prometida
No timbre melodioso das palavras

Simples, como são as coisas boas!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pausa


Mergulho no descanso dos sentidos
Abrigado à sombra de um vento brando
Enfrentando as vagas do sufoco refrescante
De dias em que a pressão é o lazer

Faço uma pausa, assim espero.


Boas férias

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sempre


Não se abate com um dedo decisor
O sabor de saber que ainda existem
As cores de um olhar de alegria
Por entre um esgar serpenteando

No canto dos lábios rematando
Um momento emoldurado no infinito

Não foi sol que as flores desabrochou
Ou humidade que o verde explodiu

Foi um dom que criou esse esplendor
A verdade refletida num momento
O sonho traduzido em alento


Um reino onde tudo é possível

domingo, 22 de junho de 2014

torrente


Mais um que corre
por entre a multidão de apressados
Mergulhando num dia que conheces
Enfrentas as horas do dever
Deixas-te levar nessa corrente
Do ter que ser, do que é urgente

Das partes que somadas nunca dão
o todo que sempre foi inatingível
mas de tanto ser citado se tornou
miragem, utopia, desatino

Esqueceste porém que nessas horas
Se havia algo que merecesse
o cuidado, a eterna proteção
mais que tudo, a tua atenção
não era o tão adorado sustento
eras tu, em todo e qualquer momento

Amanhã há outro dia
Sem ti, nada existe!

domingo, 8 de junho de 2014

eternidade




Entre as sombras
Que cobrem o sentir do fim da tarde
Navego pela réstia do momento
Sinto o que ficou de dias quentes
Na brisa do sussurro que era ardente
Vindo de um lugar que eras tu
Soprado por um sonho inacabado

Fugaz é o tempo infinito
Comparado ao instante desejado
De um momento apenas

A eternidade
Dos segundos contados pelos dedos
Mas, plenos de viver
Sentir
Ser

Entre o sol
Que me convida a voltar
A um mundo onde já vivemos

terça-feira, 27 de maio de 2014

Difusa


No que se torna a ténue réstia de histeria
Que os longos dias de maio alimentaram
Fizeram criar no teu encanto
A liberdade de um sonho adormecido

Difusa se tornou a lembrança
do calor que emana da tua voz
do som vibrante do teu olhar
percorrendo o universo que há em mim

Suave é a ternura do encanto
Como leve o ondular de um desejo
O voltar da cabeça, um lampejo

A serenidade recortada
na curva de uns lábios
onde mergulho

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Tangível


Consulto o calendário intemporal
Das horas que vivemos sem saber
Do tempo que infinito imaginava
Embora contado em minutos
De um todo que era apenas
Uma ínfima parte do prazer

Consumimos os segundos dos momentos
Que a areia branca acolhia
E em palavras entrecortadas
O vento contrafeito sussurrava

Perdia-me num refúgio imaginário
Convertido no único sentido possível
Que os dias podiam almejar

Seria assim tangível o irreal
Ou a vontade de o infinito alcançar?

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Caminho


Na complexa e tortuosa demanda
do fio dos dias conquistar
as marcas das pegadas apagar
almejando um descanso imaginado

Abriguei-me numa chuva de delírios
expus-me à sombra
de uma aragem persistente
na esperança de assim, seduzido
poder num fim de tarde descansar

Mas sendo certo e fatal
integrando o manual da alquimia e
colorindo os compêndios da memória
nem todas os dias são tardes de domingo
nem todo o vento é pronúncio de encanto

Afinal emparedado entre dois lóbulos
desfocado pela ausência e o descrer
era só mais uma etapa ultrapassada
dos caminhos que assaltam a lembrança

sexta-feira, 2 de maio de 2014

À mãe



Graça entrou com um saco na mão, pousando-o ao lado do pai, abraçou-o longamente depositando-lhe um beijo na face.
Sem palavras, porque são estas que tantas vezes, estorvando, nos tolhem o exteriorizar de sentimentos, dirigiu-se à ainda estática Augusta.
Sentou-se no seu colo, verteu a saudade em suspiros, deixou-se trespassar pela emoção e rodeando-lhe o pescoço com os braços, exclamou:

- Mãe, como tive saudades tuas!

terça-feira, 22 de abril de 2014

Vaga


vago o olhar nas vagas
que trazem sons de um local
que já foi meu

leal em espera absoluta
absorto com o mesmo objetivo
sentindo o vazio do sentido
e o vagar do espaço que foi teu
a meu lado,
um fiel amigo resistente

não me espanto com o silêncio
não quero saber do que já sei
deixarei em vão bater as vagas
assim estático, imóvel, permanecerei

sentindo o suave do sentir
bebendo a beleza deste quadro
este mundo etéreo que me é dado
sem pressa nem vontade de voltar
aqui, ternamente, hei de ficar

terça-feira, 15 de abril de 2014

A Ponte


De um lado
o sol que me invade os sentidos
Nas costas
uma sombra que me tolhe a destreza

Num misto de desejo bipolar
De saltar rumo à liberdade
Ou ficar no meu desassossego

Fugir sem rumo nem destino
Ou recostar-me no sedentário conforto
da apatia

Às malvas atirar o desatino
Da calma recolher o agasalho
Despir-me da capa de aconchego
Ou rumar à eterna fantasia

No meio de pontos extremados
Divididos pelo caudal da sensatez
Corre lento o rio do viver

A uni-los, uma ponte de evasão

terça-feira, 8 de abril de 2014

Um Rio



Se fosse o leito de um rio
sereno correndo para o fim
o início de um sonho relembrado
por um vento que sopra o teu aroma
Seria eu próprio a lembrança
dos dias que navegámos sentimentos

Nas margens desse sonho me retinhas
essas águas tomavas em teu regaço
e no ardil desse leito me possuías

Porque um rio
só é livre num sentido,
já que único é o seu destino
domado é todo o seu movimento
e sempre se entrega num espasmo
a um mar que o toma sem ressalvas
Num só se fundem
como se nada mais existisse
apenas duas partes moldadas
num jogo sem regras nem deveres!

segunda-feira, 31 de março de 2014

Encruzilhada


Os dias, apesar de sempre iguais, passados na rotina exasperante a que se tinham habituado, escorriam por entre os dedos com a mesma rapidez que passavam àqueles que se encontravam no mais paradisíaco dos destinos turísticos.

Tem destas ironias a vida, democraticamente impõe os seus desígnios. Não prolonga a duração dos momentos de sofrimento, mas também não alarga os momentos de prazer. Uma hora tem sempre sessenta minutos, a intensidade com que se vivem é que varia, o resto é apenas metafísica.


segunda-feira, 24 de março de 2014

Um ponto






Um ponto
Um barco
 na linha do horizonte
O sol que se esconde intrigado

A mensagem
 do que foi um sobressalto
Algures
 no recanto do momento
Assinalado
 pelo farol da sintonia
Envolto
 nas ondas do querer
Sopro
 de um vento que fugaz
te faz navegar
para um porto de acalmia

Simples, efémero
Intenso, murmurante
um momento
Ou apenas uma vida

terça-feira, 18 de março de 2014

Um dia




Não preciso o mundo possuir
Ter dos arsenais o controlo total
Nas mãos abarcar o por do sol
Ser dono do casino que é a vida

Gestor de um bordel transfronteiriço
onde se aliviam mágoas
e se atiçam fráguas

Não quero dominar a primavera
Da lua retirar o brilho
Nem o sol suster no horizonte

Para quê o Mundo possuir
Se um sorriso na tua cara
vale o mundo?

terça-feira, 11 de março de 2014

Repousar



Quero descansar num leito brando
Rodear-me do aconchego da ternura
Embebido pelas cores de um sonho vago
Pintado em aguarela de tons quentes

Não vou remar
contra o desígnio do descanso
Enfrentar o ócio que me vence
Tecer desafios contra o nunca
Cavalgar nas ondas da refrega

Ensaiar uma tática ofensiva
ou esgrimir argumentos de defesa
a um apetecível desejo de serenar
a vontade de ser aprisionado
pelos braços esperados do desejo

Basta o suave enleio de uns braços
O infinito condensado nesta tela

Aqui, vou apenas repousar

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O sonho de Orfeu



Sublime é o saber desse sentir
Na curva que envolve o teu sorriso
O dom que só possui o sentimento
O sabor de beber o teu olhar
Que vaga nas ondas do desejo
Soprado pela brisa da saudade

Conseguir na retina o teu suspiro fixar
No instante que possui um por do sol
Completa a certeza do encanto
Do mundo condensado num momento

Se vida existe no sonhar
Onde irrompes subtil sem o pedir
E marcas indelével o porvir

Vivê-la é um destino fatal

domingo, 16 de fevereiro de 2014

No cinzento


Quem me dera ser fim de inverno
Às malvas mandar os dias tristes
Esquecer que fui vento, frio, chuva
Que despido enfrentei o gelo atroz
Perdido em cinzento nevoeiro
Sem luz, farol ou lua cheia

Quem me dera vestir a cor e a luz
Em dias que se eternizam
Sem temor de pela noite entrar

Ser cheiro a feno, papoilas e flor de giesta
Abraçar o sol por quem tanto esperei
E dormir sob uma cheia lua de utopias
Num sonho onde domina a esperança

Quem me dera o poder ter
De todos os invernos terminar

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Dias Não


Sou parte de um todo imaginário
Elo da corrente que cedeu
Acento de palavra apagada
Ponto final de frase reprimida

Desço ao baú do esquecimento
Revolvo a poeira do mistério
Ergo-me num gesto banal
Procuro repor o semblante
Livrar-me dessa mão que me aprisiona
Essa tenaz que me sufoca
No meio do tremor de um naufrágio
Entre suores de frio e rude arfar
De nome Influenza, gripe ou malvadez

Serão apenas cinco dias de penar
Ou espaço para arrumar a lucidez

domingo, 26 de janeiro de 2014

Haverá um dia assim?


No lento remanso da chuva miudinha
Embalado no calor do recolhimento
Ao som do crepitar da lenha seca
Cuja chama alimenta o divagar
Sinto o suave torpor das horas vagas
Bebo a letargia do momento
Absorvo, vago e sonolento
A eternidade dormente
De nada fazer e tão-somente
Sentir-me nos píncaros da preguiça
Despir-me da opressão das horas cheias
Viver esta efémera panaceia
Conceber nem que apenas num momento
Que do cinza húmido de um dia triste
Se colhe o paraíso que existe


Haverá um dia assim?

sábado, 18 de janeiro de 2014

Ao som de um dia assim


Sigo ao som do vento a vontade
Desço ao murmúrio do lamento
Oculto-me no opaco das palavras
Na sombra de um sentir entorpecido
Procuro mais além onde era ardor
Do ventre do desejo tiro o alento
Do refúgio surge nova vaga
Algo de um tempo esquecido
Trás na crista a mensagem esperada
Devolve à lembrança a eternidade

Um dia haverá um dia triste
Não hoje que a beleza o não permite

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Dias claros



Gosto do suave sentir dos dias claros
Da sombra que sem sol não existia
Do calor que sem luz era ilusão
Do sentir que irrompe da leveza
que a cinza abandonou
o verde floresceu
e o azul acompanhou

Assim divagando em mar calmo
Onde tudo encaixa em harmonia
No sopro do encanto, da certeza
que a vida tem mais do que um só dia
e não se esgota no efémero do momento
é cor, prazer e terno alento

O suave sentir dos dias claros
A doce tentação da alegria

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Inverno


Não há um inverno de sentir
Nos dias de um ano que se acaba
Transportado ao som do movimento
Das folhas que castanhas se tornaram
e planando num bailado ensaiado
deixaram despida a esperança
Caindo em solo enrijecido
pelo belo, agreste e falso gelo

Há, sim, dias de chuva intensa
Que alimentam o caudal da nostalgia
Desaguam na torrente da lembrança
E com a turbulência dos festejos
Provocam cheias de vazio

Não há um inverno de sentir
Senão muitos dias de desejo